CG | Chico Gaspar

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Este artigo foi escrito em
27 dez 2013, e posto na categoria: Cultura & Sociedade, Literatura & Filosofia, Textos Chico Gaspar.

Reflexão de Reveillon

 

ATAVISMOS

 

Não é que outro ano se encaminha para o fim.

Vertendo outras pouco mais de três centenas e meia,
de pequenas crônicas e fábulas quotidianas,
na pilha que alguém um dia há-de apelidar de biografia.

E este sujeito oculto e sorrateiro,
a quem aqui me refiro com certo apreço e anseio,
carrega consigo todas as fingidiças promessas,
que fazemos entre tilintares ébrios de taças de champagne.

Ah, monótona isocronia!

Feliz, é quem ocluso em juízo próprio,
emprega esforço em obstar-se aos atavismos.
Pois é de forma entupigaitada que comungo
com os que se recriam, se reinventam e se reiniciam.

E é me redefinindo e recriando,
fendendo rótulos e sulcando planos,
que ano a ano expando os limites
que me definem a condição de humano.
-Ou, ao menos tento em minha doce ilusão!-

Pois, existe prazer maior do que sobejar as tranchefilas?

Ver-se transpassar limites e nomenclaturas
com a casualidade altiva da folha seca,
que namorando o cambaleante vento
evade divisas e fronteiras?

Oh, como invejo a certeza dos inscientes!

Quisera poder marchar apedeuta rumo a esta nova translação.
Fixar-me na aquisição de novos e descartáveis rótulos
e descumprir as mesmas promessas ébrias anualmente proferidas,
sem jamais sentir tais gabarolices pesarem a consciência.

Mas, a reflexão jamais indulta a jactância.

E entre vocábulos demasiadamente rebuscados
– loquacidade pretensiosa e atalhada –
recalculo as metas que balizam esta minha parábola.

Perdido em verbetes.
Como quem lhe vê desaparecer a estrada sob os pés,
sigo regozijante em meu simples e descompromissado caminhar.
Quer seja marchando pelas estradas da vida,
ou borboleteando pelas trilhas do pensar.

Quem há de, em sã consciência, julgar-me,
por ser espírito errante em um mundo de erros?
Abrindo todas as portas que se apresentam em meu caminho,
sem encontrar coragem de fechar uma sequer.

Pois poderia eu desafiar a infinitude do próprio tempo,
como quem busca o término de um capítulo?

Não vê que nem o universo encontra em si a energia
para findar o que nele existe?

E assim, prefere
reiniciar, e reiniciar, e reiniciar…

E por isso, podemos começar uma prosa com:

Não é que outro ano se encaminha para o fim!

 

 

 

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