CG | Chico Gaspar

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Este artigo foi escrito em
11 out 2013, e posto na categoria: Cultura & Sociedade, Literatura & Filosofia.

Nove anos da morte de Fernando Sabino

fernando_sabino(…) A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo.  A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a  se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo súbito,  a  observá-lo,  nossos  olhos  se encontram,  ele  se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba  sustentando  o  olhar  e  enfim  se  abre  num  sorriso. Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso. (A Última Crônica)

Fernando Tavares Sabino, nascido em Belo Horizonte no dia 12 de Outubro de 1923 (Dia das Crianças), filho de Domingos Sabino e D. Odete Tavares Sabino, foi um dos mais prolíficos  cronistas brasileiros.

Escoteiro, nadador, locutor, jornalista e cronista, Fernando Sabino foi um prodígio e dono de uma vida extremamente produtiva tendo seu primeiro livro publicado em 1941 (Os Grilos não Cantam Mais), quando tinha apenas 18 anos. Vale a pena ressaltar que alguns dos contos contidos neste livro foram escritos quando o autor tinha não mais que 14 anos de idade.

Como nadador bateu diversos recordes em sua modalidade, o nado de costas, competindo nas cidades de Uberlândia, São Paulo e Rio de Janeiro, chegando a se tornar campeão sul-americano em 1939. Ainda neste ano, participa da Maratona Nacional de Português e Gramática Histórica, empatando em segundo lugar com Hélio Pellegrino e recebendo do então Ministro da Educação, em sessão solene na cidade do Rio de Janeiro, sua premiação.

imagesEm 1945 participa da delegação mineira no Congresso Brasileiro de Escritores em São Paulo, que exige a leitura para o público ali presente, da Moção de Princípios proclamada pelo congresso, que exigia de Getúlio Vargas a abolição da censura e a restauração do regime democrático no Brasil.

Em 1947, residindo em Nova York para onde embarcou junto com Vinicius de Moraes, escreve uma série de crônicas para jornais do Rio de Janeiro e do resto país, além de começar dois romances que embora não terminados, viriam a ser aproveitados no romance “Encontro Marcado”. É em Nova York que realiza uma série de entrevistas com o pintor Salvador Dali, além de uma reportagem com Lazar Segal.

Em 1948 retorna ao Brasil a bordo de um navio cargueiro que se incendeia a caminho de Bermudas.

Sempre engajado politicamente, em 1954, à convite de Carlos Lacerda, chega a fazer campanha política em Recife e Fortaleza. Ainda em 54 antecipa em “exclusiva” o lançamento da candidatura à presidência do General Juarez Távora de quem, já em 1955, assume a cobertura da campanha através do jornal “Diário Carioca”, após ter uma conversa classificada como “decepcionante” em jantar com o governador de Minas Gerais e também candidato à presidência Juscelino Kubitscheck.

Em 1956 publica uma de suas maiores obras: O romance “O Encontro Marcado”. Esta obra alcança um sucesso extraordinário de crítica e público, tanto no Brasil quanto no exterior, chegando à uma média de duas edições anuais só no Brasil, além de suas adaptações para teatro no Rio de Janeiro e em São Paulo. O sucesso desta obra junto às crônicas diárias escritas para o “Jornal do Brasil”, permitem que Sabino peça exoneração do cargo público que até então possuía (Escrivão da Vara de Órfãos e Sucessões) e passe a viver exclusivamente de sua produção intelectual.

Em 1959 viaja para Europa onde passa 90 dias, período que relata através de crônicas diárias para o “Jornal do Brasil”, semanais para “Manchete” e mensais para a revista “Senhor”, totalizando 96 crônicas escritas e publicadas em 90 dias de viagem.

“Em 1960 faz viagem a Cuba, como correspondente do “Jornal do Brasil”, na comitiva de Jânio Quadros, eleito Presidente da República e ainda não empossado. Faz reportagem sobre a revolução cubana, “A Revolução dos Jovens Iluminados”, constante do livro com que inaugura a Editora do Autor, fundada por ele em sociedade com Rubem Braga e Walter Acosta, ocasião em que também são lançados “Furacão sobre Cuba”, de Jean-Paul Sartre (presente ao acontecimento com sua mulher Simone de Beauvoir); “Ai de ti, Copacabana”, de Rubem Braga; “O Cego de Ipanema”, de Paulo Mendes Campos e “Antologia Poética”, de Manuel Bandeira. Fernando Sabino lança o livro “O Homem Nu” pela nova editora. “

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images (2)Em 64, sob o governo de João Goulart se torna Adido Cultural da Embaixada do Brasil em Londres. Continua a enviar seus relatos ao Jornal do Brasil, à Manchete e agora à revista Cláudia. Além de fazer leitura semanal de uma crônica na BBC Londres em programa especial para o Brasil.

Em 1965, responsável pela delegação britânica que viria ao Festival Internacional de Cinema no Rio de Janeiro, Sabino trás os renomados diretores: Alexander Mackendrick, Fritz Lang e Roman Polanski. Ele também representa o Brasil no Festival Internacional de Cinema, em Edimburgo, na Escócia, e no Congresso Internacional de Literatura do Pen club em Bled, na Iugoslávia, onde reencontra Pablo Neruda.

Por residir na inglaterra, em 1966 acaba por fazer a cobertura da Copa do Mundo de Futebol para o Jornal do Brasil, que foi marcada pela presença de lendas do futebol como Franz Beckenbauer da Alemanha Ocidental,  Eusébio (Pantera Negra) de Portugal, Bobby Moore e Gordon Banks da Inglaterra, etc.

No anos seguinte “O Encontro Marcado” é lançado na Inglaterra em pocket-book. No dia 13 de dezembro a Editora Sabiá (da qual era sócio) programou uma festa no Museu de Arte Moderna, no Rio, com o lançamento de vários livros, entre os quais: “Revolução dentro da Paz”, de Dom Hélder Câmara; “Roda Viva”, de Chico Buarque de Holanda; “O Cristo do Povo”, de Márcio Moreira Alves e, fechando com chave de ouro, “Nossa luta em Sierra Maestra”, de Che Guevara. Nesse dia é editado o Ato Institucional que oficializa a ditadura militar e, como não poderia deixar de ser, a festa não se realiza.

Sabino segue para Lisboa, Roma, Paris, Berlim, Londres e Nova York, em 1969, como enviado especial do “Jornal do Brasil”, para uma série de reportagens sobre “O que está acontecendo nas maiores cidades do mundo ocidental”. Publica, pela Sabiá, um livro de literatura infantil: “Evangelho das Crianças”, escrito com a colaboração de Marco Aurélio Matos.

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Após realizar, a pedido do governo alemão, em 1971, uma reportagem na Europa intitulada “Ballet de Márcia Haidée em Stutgart”, Sabino retorna ao  Brasil e realiza um curta metragem em super-8 sobre Rubem Braga chamado “O Dia de Braga”. Este filme, apresentado na Tv Globo, acabaria por se tornar um modelo para uma série de documentários em 35mm que ele viria a fazer sobre diversos outros escritores brasileiros.

Em 1973 funda, junto com David Neves, a Bem-Te-Vi Filmes LTDA, onde realizaria uma série de documentários como “A Ponte da Amizade”, rodado em Assunção do Paraguai; “Literatura Nacional Contemporânea”, que fala sobre diversos escritores brasileiros e outros documentários sobre feiras internacionais no Teerã, México, Argel e Hanôver.

10437_427547497283307_1877858958_nÉ em 1979 que finalmente acaba o romance que havia começado à 33 anos: “O Grande Mentecapto”. Mais um imenso sucesso literário, o livro acabaria por ser adaptado para o cinema, sob a direção de Oswaldo Caldeira e com Diogo Vilela no papel central. Também viria a ser adaptado para o teatro e assim apresentado em casas no Rio de Janeiro e São Paulo.

Em 1980 o romance “O Grande Mentecapto” receberia o Prêmio Jabuti, uma das mais importantes premiações da literatura brasileira.

Em 1981 recebe o prêmio Golfinho de Ouro, dado pelo Conselho Estadual de Educação e Cultura do Rio de Janeiro.

Sua onde de lançamentos e sucesso é continuada com as publicações de “O Menino no Espelho” em 1982, livro ilustrado por Carlos Scliar; “O Gato sou Eu” em 1983; “Macacos me Mordam” e “A Vitória da Infância”, ambos em 1984, sucedidos pela publicação de “O Grande Mentecapto” em Lisboa. “A Faca de Dois Gumes” é publicado em 1985, com adaptação dirigida por Murilo Sales para o cinema. Ainda em 1985 escreve uma peça teatral baseada em “Martini Seco”, além de ser condecorado com a Ordem do Rio Branco no grau de Grã-Cruz pelo governo brasileiro.

Após uma década desde sua publicação como livro, em 1989 o filme “O Grande Mentecapto” é premiado no Festival Internacional de Gramado e no ano seguinte no Festival de Cinema de Washington.

“Em 1991, lança o livro “Zélia, Uma Paixão”, biografia autorizada de Zélia Cardoso de Mello, Ministra da Fazenda no governo Collor, com tratamento literário. Os escândalos em sua vida privada e sua saída do governo foram motivo de grande repercussão entre os brasileiros, criando clima hostil ao escritor. Por ironia do destino, nesse mesmo ano sua novela “O Bom Ladrão”, do livro “A Faca de Dois Gumes”, é lançada em edição extra como brinde ao dicionário de Celso Luft, com tiragem recorde de 500.000 exemplares.”

– Itaú Cultural.

A Editora Nova Aguilar, em 1996 lança sua Obra Reunida, em 3 volumes, e em 1999 finalmente é homenageado pela Academia Brasileira de Letras com o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra, e doa valor da premiação a instituições que cuidam de crianças carentes.

Lança a coletânea de crônicas Livro Aberto em 2001, com textos produzidos entre 1939 e 1999.

E em 11 de outubro de 2004 Fernando Sabino nos deixa, vítima de cancêr no figado. Porém não sem nos deixar um último agrado com mais uma de suas tantas e tão valiosas frases e pensamentos, tendo em sua lápide, à seu pedido gravado:

“Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino.”

fernando-sabino

“No final tudo vai dar certo; se não der, é porque não chegou o final”

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